floresta vazia

floresta vazia

 

A floresta

Era uma floresta

Muito defaunada

Não tinha cateto

Não tinha nada

Ninguém queria

Entrar nela, não

Porque na floresta

Não tinha gibão

Ninguém podia

Ouvir um Urutau

Porque na floresta

Não tinha tal

Ninguém podia

Ver um Araçari

Porque a ave

Não havia ali

Não era bela

Sem sua fauna

Com número zero

De animais

Quando viajamos de avião podemos observar manchas florestais pequenas, muitas bem pequenas, e algumas poucas grandes, geralmente sendo unidades de conservação. Ao passar pela Amazônia podemos ver um mar verde de plantas, árvores de todos os portes, uma exuberância fantástica. E atualmente muitas, muitas pastagens.

Imaginamos então que estas florestas lindas, verdes, estão cheias de vida.

Mas não, boa parte delas não apresentam mais seus animais originais, os verdadeiros herdeiros destas terras. Ocorreu, e ocorre uma verdadeira defaunação em nossas florestas, muitos dos animais foram caçados até seu último indivíduo, alguns rarearam tanto que inviabilizou-se sua capacidade de reprodução, praticamente impossível ocorrer encontros entre machos e fêmeas em idade reprodutiva.

Assim como na música de Vinicius de Morais sobre uma casa que não tinha nada, nossas florestas que era a casa de muitos animais, desde diminutos besourinhos até grandes felinos e herbívoros, não tem mais quase nada.

Exagero? Então vamos aos fatos. Num dos textos “ A floresta em pedaços e a floresta vazia” do Livro O Poema Imperfeito do nobre professor Fernando Fernandez podemos ler:

“ Um dos mais violentos choques que já tive em minha vida foi ler o artigo The empty forest (A floresta vazia) publicado por Kent Redford, em 1992. Na sua tabela 1, Redford relaciona o número de animais e peles de animais de diferentes espécies exportados, legalmente de um único porto (Iquinos, um porto fluvial da Amazônia peruana) em cinco anos, 1962-1967. Os números falam por si mesmos: “Macacos vivos, 183.664. Peles: jacarés, Melanosuchus 47.616, Caiman 101.641; mamíferos, capivara (Hydrochaeris) 67.575, lontra (Lutra) 47.851, ariranha (Pteronura) 2.529, jaguatirica (Felis pardalis) 61.499, gato-do-mato (Felix wiedii) 9.565, onça pintada (Panthera) 5.345 [compare com a população do Iguaçu sendo 150! ], cateto (Tayassu tajacu) 690.210, queixada (Tayassu peccari) 239.472, veado (Mazama) 169.775, total 1.626.751 [mais de 1,6 milhão!].

A perda dos animais pode levar a consequências inimagináveis, inclusive para as populações humanas, como a ausência de insetos polinizadores e seu impacto potencial desastroso na agricultura.

Perder um animal do topo da cadeia alimentar é mais óbvio. A presença das onças impedem que predadores menores eliminem os demais, gerando uma diversidade maior destes “súditos” dos felinos (Pesquisa Fapesp, 2014).

Esta é uma relação entre espécies de animais, e entre plantas e animais ?

Um estudo desenvolvido pelo professor Mauro Galleti e colaboradores (2013) sobre as relações entre aves e o palmito jussara (Euterpe edulis) identificou que em áreas onde não havia mais aves grandes (exemplo: araçari, tucano), áreas pouco preservadas, as sementes do palmito tinham entre 7 a 14 milímetros, com a grande maioria entre 9 e 11 milímetros. Já nas áreas mais preservadas a maioria das sementes coletadas tinham entre 11 e 12 milímetros, ou seja, maiores, após analisar se fatores ambientais abióticos e bióticos que podiam estar influenciando estas diferenças, chegou-se à conclusão que era a presença ou ausência de aves com bicos maiores que estava gerando o resultado.

grafico

Fonte: http://www.oeco.org.br/fauna-e-flora/27261-presenca-de-tucanos-mantem-diversidade-das-palmeiras-jucara acessado em 03/05/2015

As sementes menores geram palmeiras com diâmetro menores, que crescem mais devagar e são mais vulnerais, além de ter uma germinação menor.

Este fato pode ocasionar prejuízos futuros para as populações de palmito, com uma possível extinção num longo prazo.

Uma forma de solucionar estas variáveis e os impactos da falta de animais na própria floresta e nas interações dos animais seria fazer reintrodução de animais, o que já vem sendo feito em pequena escala em alguns pontos do Brasil, mas isso seria outro texto…

Da próxima vez que observar uma linda floresta pense se lá estão os seus moradores, seus “produtores”, seus “limpadores”, seus “arquitetos”, seus “cantores”, esperamos que ela volte a ter um chão repleto de animais.

Sandro Muniz

Fontes:

GALETTI, Mauro. et al. Functional Extinction of Birds Drives Rapid Evolutionary Changes in Seed Size. Science. v. 340, p. 1086-1090. 2013

Revista Pesquisa Fapesp. Número 233. Setembro de 2014.

Presença de tucanos mantém diversidade das palmeiras juçara. http://www.oeco.org.br/fauna-e-flora/27261-presenca-de-tucanos-mantem-diversidade-das-palmeiras-jucara. Acessado em 03/05/2015.

http://sao-paulo.estadao.com.br/noticias/geral,o-tucano-e-o-palmito-imp-,1064875. Acessado em 03/05/2015.

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